Quem é Qaddafi?

Filme "Leão do Deserto".

O filme "Leão do Deserto" retrata o confronto de um herói líbio (Anthony Quinn) contra as forças italianas fascistas.

Moammar el-Qaddafi? Muammar Kaddafi? Muhammar Qaddaf? Quem é ele?

Qaddafi cresceu em uma Líbia que havia sido arrasada pelo brutal colonialismo italiano. A Itália dominou a Líbia de 1911 a 1943 e matou quase metade da população do país. Os italianos acabaram com qualquer embrião de estado moderno que estivesse surgindo na Líbia. No pós guerra o país é conduzido pelo Rei Idris I, que fazia o mesmo regime dos dominadores italianos. Neste ambiente Qadaffi desenvolve seu ódio pelo ocidente.

Qaddafi, 1969.

Qaddafi em 1969. O soldado alinhado.

Em 1969 o jovem revolucionário, Coronel Qaddafi, assume o poder em um golpe militar. Um elegante militar, em um uniforme perfeitamente alinhado se ajoelha no deserto para rezar. Queria restaurar a grandeza do nacionalismo árabe na Líbia. Seu herói é o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser (que foi assassinado durante uma parada militar). Em 1970 Qaddafi nacionaliza as empresas de petróleo, com isso ganha crédito e credibilidade na Líbia. Logo depois escreveu seu manifesto, o “Livro Verde”, um livro de slogans e chamadas nacionalistas grotescas que passa a ser um guia ideológico para a “revolução sem fim na Líbia”.

Qaddafi-1972

Em 1970 Qaddafi nacionaliza as empresas de petróleo.

Alguns trechos do livro viraram ordenamento nacional como “a casa pertence a quem mora nela”. Isto forçou proprietários de vários imóveis a terem que abdicar de suas propriedades. Outra frase famosa é “a democracia é o aborto dos direitos individuais”. No livro ele refere a si mesmo como o “Líder”, ou o “Guia”, uma espécie de oráculo de sua própria revolução.

Aos poucos o regime ambicioso e cheio de esperanças revolucionárias vai revelando seu lado mais negro. Os líbios são reprimidos com punho de ferro e qualquer manifestação contrária ao regime é punido não só com a morte, mas com a perseguição de vários membros da família de quem fosse dissidente.

Livro Verde

Livro Verde “Isto é uma genuína democracia, mas na verdade o mais forte é que manda.

Durante o exílio de Qaddafi ele aprofunda sua capacidade de articular o terrorismo, em uma operação chamada “cão rastreador” ele matou dissidentes que estavam no fora da Líbia. Em 1984, quando manifestantes líbios protestavam em frente a embaixada em Londres, uma policial, que tentava organizar a multidão, foi baleada com um projétil saído de dentro da embaixada da Líbia. Isto levou a Inglaterra a romper relações diplomáticas com a Líbia na época.

O Presidente Ronald Reagan chamava o inconveniente Qaddafi, que furava encontros internacionais sem ser convidado, de o “cão raivoso do oriente médio”. Em 1988 ele é o mentor de um atentando a bomba que derruba um Boeing da Pan Am com 270 pessoas em Lockerbie, na Escócia.

Lockerbie, 1988

Destroços do avião derrubado na Escócia em Lockerbie, 1988.

Cada vez mais apocalíptico Qaddafi em seus inflamados discursos sempre culpa  as conspirações  Americanas e os Sionistas. Armado com o dinheiro do petróleo ele ataca o ocidente com atos de terrorismo como a bomba em La Belle Disco na Alemanha, em 1986, que matou dois soldados americanos.

Yvonne_Fletcher

Yvonne Fletcher assassinada em frente a embaixada da Inglaterra.

Qaddafi apoiou no mundo todo movimentos de insurreição, movimentos oposicionistas na África central e até o IRA (Irish Revolutionary Army). Repetidamente sofreu sanções econômicas que dificultaram sua vida.

Em 2003 o governo da Líbia finalmente concordou em entregar suas armas químicas e bilológicas, depois de um longo processo de negociação intermediado pelos americanos e ingleses. Este foi o marco do início de sua “rabilitação” junto a comunidade internacional.

O governo líbio contratou uma consultoria internacional para criar um fórum de debates sobre a natureza da democracia com o “líder da revolução”. Vários intelectuais e figuras públicas foram a Líbia para dar o seu aval em troca do conforto dos petrodólares. Isto alimentou a convicção de Qaddafi de que ele era um grande estadista e um líder de importância internacional.

O homem que havia personificado o terrorismo agora era um valioso aliado na luta contra o terrorismo. Entre um chilique e outro de suas manias ele cooperava inclusive levando terroristas a interrogatórios. As empresas de petróleo americanas deram retorno econômico para a Líbia em troca da aproximação. Tony Blair, no época o primeiro ministro Inglês, inclusive vendeu armas para Qaddafi, e assim facilitou a entrada da British Petroleum na Líbia.

Photo: Atentado em La Belle, Berlin, Alemanha, 1986. http://www.xtimeline.com

 

O ciclo se fecha com um Qaddafi incoerente mas muito familiar para quem conhece sua história. Foi a TV esta semana com o livro verde em punho e fez discursos dizendo que “esmagaria seu oponentes como a baratas”, quase hilariante, se não fosse absolutamente trágico.

Gaddafi, o grande líder.

Qaddafi 2003, a reabilitação de um terrorista.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Com informações do texto de opinião publicado no Jornal The New York Times pelo Professor Dirk Vandewalle, autor do livro “Modern Libya”.
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Sobre Luciano Medina Martins

Journalist, blogger, activist against the abuses of states that violate citizens' rights. I don't write about one only topic, I like to interact with many different issues. No fake news here.
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