Frivolidade é teu nome

Uma das estratégias do jornalismo, dos formadores de opinião e dos caçadores de votos,  a fim  de gerarem audiência, é  pinçar um fato, entre os vários em evidência, jogarem os holofotes sobre este tal fato e assim agendarem os debates. Ou seja, pautarem o debate de quase todos em todas as esquinas. Em um movimento gregarista somos compelidos a opinar e debater sobre o tal fato destacado.

Vamos aos números. Segundo o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) em São Paulo quase 40% dos idosos que sofrem agressões são vitimados pelos seus filhos e filhas, justo aqueles deveriam os cuidar. Só em São Paulo o número de ocorrências policias de violência contra idosos está na faixa da centena de milhares por ano, levantando a forte suspeita de que a violência contra o idoso seja um problema com alta incidência dentro dos lares brasileiros. Situação paralela acontece com crianças no ambiente escolar e doméstico. Aqueles que deveriam cuidar e educar as crianças as agridem, as desrespeitam e as escravizam. De 2013 para 2014, o número de meninas e meninos entre 5 e 15 anos trabalhando no país subiu 8% (Unicef). Mais de 3 milhões de meninos e meninas ainda estão fora da escola no Brasil (Pnad, 2013), muitos buscam ajudar suas famílias a sobreviverem e abandonam os estudos. 

Essa exclusão escolar tem rosto e endereço: grande parte daqueles fora da escola são pobres, negros, indígenas e quilombolas. Sendo que a parte majoritária das crianças que evadiram vive nas periferias dos grandes centros urbanos. Todos os outros grupos sociais também apresentam algum tipo de deficiência educacional entre crianças. Portanto, no Brasil o maior grupo com as mais graves carências e vulnerabilidades que levam até mesmo a fatalidade é o das crianças.

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Alguns temas se tornaram tão espinhosos que qualquer reflexão é vista como enfrentamento. Polarizar a sociedade entre grupos opositores só interessa a quem se beneficia com o enfrentamento. (Foto: Luciano Medina Martins)

Mas o que faz com que a situação de desrespeito as mulheres receba tanta atenção a mais do que a dos idosos e das crianças? Audiência e votos. Existem mais títulos de eleitor nas mãos das mulheres que também têm presença majoritária entre os telespectadores de novelas brasileiras e no Facebook entre brasileiros. Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) mulheres na faixa etária entre 45 e 59 anos foram as mais atuantes nas urnas eletrônicas nas últimas eleições. Ainda segundo o TSE mulheres representam 53% do total de eleitores do Brasil.  Muito possivelmente a gigantesca proliferação de candidatas aos parlamentos, focadas em causas femininas e feministas e de programas partidários com estes temas, trata-se de um fenômeno do marketing político voraz por votos e audiência e que identificou neste segmento um nicho interessante. No vácuo de partidos políticos e formadores de opinião vão as marcas (brands) que precisam associar-se a causas e também competir por fatias deste mercado, se não forem posicionadas em questões humanitárias correm o risco da rejeição pelo público, não se surpreendam com um número maior de marcas de produtos e serviços oferecidos por grandes conglomerados se ligarem a luta da mulher ou a causas femininas. 

Falta de saneamento básico, calçamento precário, descarte inadequado do lixo, professores sub remunerados, escolas precárias, falta de merenda escolar de qualidade, evasão escolar, hospitais super lotados, falta de vacinação, abandono na infância e violência contra idosos constituem-se em situações que fazem muito mais vítimas do que os problemas de relacionamento entre homens e mulheres, entretanto estes assuntos não dão tanta audiência, não vendem tanto jornal, não focam no gosto do público que mais consome informação e geram menos votos para grupos que buscam espaço na mídia e influência na sociedade.

Se permitimos que a conversa de camarim da telenovela, ou as cartas marcadas dos concursos de televisão agendem o debate nacional, e a conversa de todas as esquinas então nos tornamos reféns da frivolidade que já faz séculos foi alvo da ironia de Hamlet. 

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Sobre Luciano Medina Martins

Journalist, blogger, activist against the abuses of states that violate citizens' rights. I don't write about one only topic, I like to interact with many different issues. No fake news here.
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