Não estava teclando, estava digitando

#LibertinagemDigital

Convidado para esse seminário sobre liberdade na era digital, feito para jovens, numa universidade bacana, moderna, toda conectada, “wired”, galera do campus party e da TEDx, so nerds, iria estar entre gente normal como eu. Cheguei cedo e sentei na primeira fila, pra minha sorte sentou ao meu lado um dos organizadores do evento. O conferencista começou a falar e no que o tema fica mais técnico o pessoal sacou seus netbooks, MacBooks, iPads para escrever notas, eu escrevo no celular mesmo, uso um app que salva tudo na nuvem, acho bem prático, estou acostumado a escrever no celular desde o tempo que usava um blackberry com tecladinho. Por duas horas fiz minhas anotações no meu humilde smartphone asiático, confesso, sou da geração do walkman e uso um smartphone da Sony. No intervalo fui ao banheiro e o assessor que me credenciou comentou “ta apaixonado? Deixa pra conferir o Twitter no intervalo.” Respondi com um boquiaberto:  A-hã. Eu não estava teclando, estava digitando minhas notas. Fiquei feliz que estavam me observando, que bom, alguém olha pra mim, mas preocupado de que seria o alvo da raiva dos organizadores e chateado com o preconceito contra quem não anda com um equipamento maior do que um celular para anotar. Para minha sorte o conferencia terminou sem mais nenhum intervalo e ao fim o conferencista encerra sua palestra frisando que aqueles te tivessem feito notas poderiam compartilhar na Fan Page da palestra dele. Ele mal terminou de falar eu já tinha compartilhado, lavei a alma, fui o primeiro a participar do debate na page.

No mesmo dia  fui a uma reunião em uma instituição que representa o setor de TI, uma espécie de associação dos programadores, ótimo, fui de alma lavada, tinha sido ganho a batalha da rapidez da informação, mostrando que usar celular em reunião não serve só para teclar com alguém, posso estar digitando minhas notas.  Começamos a reunião da tarde, pequena, quatro pessoas. Sentamos a uma mesa oval e na hora todos abriram caderninhos sobre a mesa, para anotar. Eu com um celular na mão. Começamos a falar, e anotei o que um deles falou, ali mesmo no celular, foi como se a reunião tivesse parado, ficaram olhando eu anotar como se fosse algo de outro planeta, então expliquei, “não estou digitando, estou teclando”,  uso um app de notas e que salvo as notas da reunião nesse app que só serve para digitar. Foi bacana, o pessoal olhou o app, outra participante já pegou no seu celular, escondido no bolso,  seguimos conversando. Ao fim uma das participantes me contou que mesmo muita gente de TI indo lá, eles evitam celulares nas reuniões. Ou seja, havia pisado em um terreno perigoso dos preconceitos corporativos, o celular. O smartphone é um computador de mão,  como uma fonte de informação e cálculos vira um alienígena nas reuniões de empresas entre seus diretores? Pode isso?

A percepção das pessoas ainda é de que teclar em um celular equivale a se distrair, ou ainda pior, perturbar o ambiente ou até ofender alguém que ocupa um palco usando o celular enquanto outro fala, como se interrompesse a fala dessa pessoa. Um telefone tocando em meio a uma reunião de diretores seria exatamente o mesmo que escrever em sua testa “otário”, a coisa ficou tão séria que o celular foi proibido em reuniões em algumas empresas.

Muitos se incomodam com o fato de se usar o celular ao lado delas enquanto elas assistem a uma conferência, mesmo que este celular não emita som algum, a luz perturbaria. Desconfio que  a curiosidade por dar uma olhada na conversa do outro talvez seja mesmo perturbadora para muita gente. Esta rejeição ao dispositivo móvel está aos poucos sendo superada e as pessoas vão entendendo que além de namorar e me divertir através do celular, o que pra muitos é coisa banal, desnecessária, chata, invasora da privacidade e até perturbadora da ordem, posso também anotar, trabalhar, me informar, buscar remédios, alimentos e até participar de esferas essenciais da vida cidadã.

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Ao proibir smartphones em reuniões ou salas de aula estamos só tapando o sol com a peneira da falta de capacidade técnica e/ou criativa de aproveitar o fato de que as pessoas portam um computador em suas mãos. O que outrora era o sonho de gestores e educadores virou objeto de preconceito, constrangimento e até bullying. As diferenças de competência e o analfabetismo digital pode até ficar mais exposto quando todos tem computadores em suas mãos, o que nada mais é do que um desafio com desdobramentos muito promissores.

Para completar o dia de constrangimentos e preconceitos com o celular, na aula de pós-graduação começo a digitar no celular e o professor, justo aquele mais famoso, publicado e amado como pop star, interrompe sua explanação, e começa a discursar sobre o déficit de atenção dos alunos como sinal de descomprometimento consigo mesmo, pronto. Já era de novo o alvo de olhares de reprovação por estar digitando ao celular. De novo expliquei, “não estou teclando, estou digitando”. De imediato a colega muito querida desfere “então digita depois e presta atenção”.  Agora sou obrigado a usar caneta e papel.  Lembro que nos anos 90 logo que surgiram PCs e eletrônicos de mão já no fim da década os educadores começaram a pesquisar sobre a aplicação deles em sala de aula. A expectativa de alguns educadores era de que “Handheld Gadgets”, equipamentos de mão, fossem mais interessantes pois os alunos poderiam caminhar na sala de aula, formar grupos e um mostrar para o outro suas descobertas. Para a minha total surpresa, hoje em dia o celular é visto como um inimigo da sala de aula. Será mesmo?  Imagine todos os seus alunos, ou quase todos, com um computador de mão. Sonho da educação em outros tempos.

Não é só uma questão de uma novageração de usuários, que cresceu com um smartphone na mão, o fato mais profundo e civilizatório é o de se formarem comunidades de leitores, de pessoas que participam de um processo de diálogo feito com dedos e com letras, escrito. Se esta ferramenta com alto padrão de processamento de dados não consegue ser usada  para incrementar a eficiência de reuniões, salas de aula, debates sobre o futuro da tecnologia então algo muito estranho está acontecendo com a percepção das pessoas, sobre como criamos soluções para nos comunicarmos melhor, para mais rapidamente superar desafios, entregar soluções criativas.  Se o professor não consegue em sala de aula ser mais atraente que o smartphone, fica a dica de Paulo Freire, de usar os elementos da cultura do educando para se comunicar com ele, me parece até um desafio bem fácil, imagine que em outras épocas o professor tinha que ser mais interessante do que rock n’ roll.

Sim, sou daquela geração de maníacos que vai ao show e levanta a mão pra tirar uma foto do artista.  Aliás, no show dos Stones estava com o pé quebrado e só pude assistir graças a uns amigos que transmitiram pelo Periscope usando seus celulares. Dica. Reduza o brilho do monitor, realmente atrapalha menos.

No link fica minha dica de leitura sobre o tema, o artigo de  Jonah Stillman autor, juntamente com seu pai, David Stillman, escreveu o livro “Gen Z @ Work: How the Next Generation Is Transforming the Workplace.” https://www.nytimes.com/2017/04/07/jobs/texting-work-meetings-social-media.html?mwrsm=Facebook&_r=0

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Sobre Luciano Medina Martins

Journalist, blogger, activist against the abuses of states that violate citizens' rights. I don't write about one only topic, I like to interact with many different issues. No fake news here.
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